Uma olhada de perto no inferno pode fazer de nós pessoas mais piedosas e compassivas. Quantas vezes você pensou no inferno durante o mês passado? Muitos crentes diriam: “Não pensei nisto nenhuma vez!...” Mas não é só o crente individual que tem perdido sua paixão pelas coisas de Deus deixando de pensar no inferno. Esta doutrina é pouco pregada ou ensinada na sua profundidade nas igrejas. Ela virou uma peça de museus, guardada em cantos escuros.
A realidade do inferno, porém, exige de nós um sentimento de dor por todos os que tem ido para lá diariamente, bem como um profundo estuda dela. É triste pensar no inferno ou refletir sobre ele; mas, se meditarmos nisto cada vez mais, vamos mudar de opinião. Esta doutrina terá um efeito pessoal, diário e prático em cada crente que medita na força dela.
As palavras do Senhor a respeito do inferno são de arrepiar. Em Lucas 16, Ele nos conta a respeito de um homem rico que morreu e foi ao Hades . (O Hades era o lugar de moradia dos mortos não salvos. Ali ficavam até serem julgados). Desta narrativa e de outras podemos tirar algumas características do lugar chamado inferno.
Em primeiro lugar o inferno é um lugar onde há grande dor física. O primeiro clamor urgente surge com as palavras: “(...) porque estou atormentado nesta chama.” Lucas 16:24. Não podemos imaginar o que isto exatamente quer dizer. Todos nós temos sentido dor, em alguma medida. Sabemos que a dor pode nos fazer esquecer num instante, todas as belezas e os alvos que temos na vida. Mas a pior dor que podemos sentir não é em nada comparável com a dor do inferno. Nunca o ser humano experimentou tal sofrimento nem o imaginou. Mas Deus vai além e comenta sobre pessoas reais e como elas sentirão esta dor. Cristo não está sendo macabro; está dizendo-nos a verdade. Uma das reações das pessoas a tal dor é o choro (Lc 13:28). Não podemos olhar e ficar indiferentes ao choro. Este é algo que nos comove. Lembre-se como você foi afetado a última vez que viu alguém chorar. Lembre-se de como apareceu a compaixão em você e desejou restaurar esta pessoa! Deus deseja que saibamos e consideremos a frustração daquele que agora está no inferno.
Outra reação de quem está sofrendo no inferno é “gemer”. Este é um choro mais comovedor ainda, cheio de dramatismo e urgência pela libertação. Enquanto o choro atrai nossa simpatia, o gemido choca e nos afasta, atemoriza e ofende. O gemido deles é o grito de almas que merecem compaixão, mas não a recebem. É o grito de almas procurando escape, buscando sair de feridas sem conserto ou cura, eternamente feridas. O gemido é um som grotesco que nem o suportamos.
Outra reação de quem está sofrendo no inferno é o “ranger de dentes” (Mt 8:12). Por que? Talvez ranjam os dentes por ira ou frustração. Nada poderá aliviar a sua situação e eles o sabem... Este ranger pode ser uma defesa ou uma forma de variar o choro e os gemidos. Poderia ser uma pausa – sem parar de sofrer – para quem está cansado de chorar. Parece que o condenado não agüenta chorar mais; tem, porém, que continuar.
Vamos refazer as cenas: choro que não pára, fogo por tudo quanto é canto, gemidos, dor até onde podem agüentar sem deixar de existir... “Ranger”. Há, ainda, “o verme que nunca morre” (Mc 9:44) o fogo nunca se acaba. Ou seja, não consome, só atormenta e nunca morre. Já os vermes dão idéia de carne em decomposição, se bem que aqui se fala de almas. Algo que está bem podre, e bem podre, no inferno. Estando vivos ainda, os que ali moram sentem como que comidos vivos. Um castigo romano era atar alguém a um cadáver em decomposição e ver os vermes saindo do corpo e passando a consumir o corpo ainda em vida. Tal como a verdade do fogo, a do verme é que ele nunca acaba de consumir o que tem pela frente.
Mas o inferno tem outros dois aspectos, pouco considerados, que chamam a nossa curiosidade e assustam. Na terra nós temos duas propriedades físicas garantidas. Elas nos ajudam a nos manter física, mental e emocionalmente estáveis. São a luz e as superfícies sólidas. No inferno, infelizmente estas duas comodidades não existem. Esse é um lugar de trevas (Mt 8:12). Imaginemos uma pessoa que acaba de entrar no inferno... Pode ser um vizinho nosso, um parente ou um amigo que trabalha conosco. Depois que a primeira sensação de dor física o ataca, ele passa seus primeiros momentos chorando, gemendo e rangendo os dentes. Pouco a pouco se vai acostumando à dor. Não que agora não a sinta mais, mas a sua capacidade tem sido alargada para agüentar mais. A dor não é tolerável, mas também não tira a existência. Ainda que sinta dor, pode pensar. E logo olha ao seu redor. Todavia, quanto mais olha, mais vê trevas. Na sua vida passada aprendeu que depois de olhar um tempo na escuridão, seus olhos iam acostumando e podia ver algo de luz. Isto lhe mostrava o que estava ao seu redor. Ele então pisca e fixa bem a atenção dos seus olhos, tentando ver algo, mas acha só trevas. São trevas que parecem grudar nele, como que o apertando. Vendo que as trevas não vão embora, tenta – nervosamente – tocar algo, sentir algo sólido à sua volta... Procura paredes, rochas, árvores e cadeiras, estica as pernas tentando estar quieto sobre algo sólido. Nada! Procura sentir o chão e nada alcança. Pouco a pouco vai crescendo o pânico, o condenado repete as tentativas de movimento e demanda inútil. Depois de tudo isto, pára cansado, suspenso na escuridão. Mas não está quieto. Está sempre caindo no abismo sem fundo (Ap 20: 1-3). Ali vai, sozinho, numa queda sem fim, inseguro pela ausência de superfícies. Incapaz de tocar um objeto sólido que transmita estabilidade, chora, geme e range os dentes. Olha para si e se vê totalmente inerte. Seus gemidos se fazem ecos na escuridão e logo se volvem débeis, por tantos rugidos que há no inferno.
Enquanto o tempo parece nunca passar, de novo faz o que fez o homem rico. Ele tenta pensar. Lembra a terra, tenta achar esperança, mas a dor não o deixa nem sequer concentrar-se. Na terra quando as coisas iam mal, ele sempre achava uma saída; se sentia dor, tomava um calmante; tendo fome, comia, se perdia um amor, sempre podia achar outro. Ali, procura, então, achar na mente uma base para elaborar um plano que faça renascer a esperança no seu coração. Logo, pensa: “Jesus é um Deus de amor, Ele vai me tirar daqui.” Começa a gritar com urgência; “Jesus, Jesus! Ajuda-me, me tira daqui!” Espera respirando fundo. O som de sua voz perdeu-se nas trevas e não se ouve mais... De novo ele tenta: “Jesus, Jesus, eu creio! Me salva disto!” De novo as trevas calam a sua voz. Este pecador não é o único: todos os que estão no inferno acreditam agora, mas não serão salvos. Sendo milhões de milhões de pessoas, sente-se cada um sozinho, como se fosse o único habitante do inferno... Lembra apelos, tenta esquecer a dor, mas o pensamento lhe diz: “Isto é para sempre!” (Jesus usou a palavra “sempre” para falar tanto do céu como do inferno). “Para sempre”? “Para sempre”! O pecador fala como não acreditando. A idéia de para sempre se alarga, fica comprida, fica profunda. Uma horrível verdade aparece na sua cabeça. “Quando eu tiver passado dez mil séculos de tempo aqui, anda não terei nem um segundo a menos de castigo, nem um segundo a menos para passar aqui’. Horrorizado, ele aprende que no inferno não existe o fator tempo e que as lembranças do mal feito na terra estão sempre lhe dando pesadelos.
Tal como o rico pedia um pingo d’água, assim também o novo morador procura se entreter com esta simples ambição. Estando vivo, aprendeu que até as piores coisas podem ser suportadas se há algum alívio temporal... Mas vê que, no inferno, “(...) a fumaça de seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e não tem descanso algum, nem de dia nem de noite. (...)” (Ap 14:11). Sem descanso dia e noite. Pense nisto. A idéia de que alguém possa passar toda a eternidade sofrendo de tal forma nos impressiona fortemente... Parece que viola a sensibilidade do mais severo juiz que possa existir em nosso interior. Simplesmente, não podemos suportar o fato de só dedicar mais tempo a pensar nisto.
Mas nossos pensamentos sobre o inferno nunca serão tão cruéis como a realidade dele mesmo. Devemos entender esta doutrina e ter certeza de que ela nos afeta. Talvez, olhando de perto para ela, mudemos nossa forma de ver o pecado e levemos mais a sério a nossa vida cristã. Devemos lembrar que, aos olhos de Deus, o pecado merece castigo eterno. Devemos aprender a odiar o pecado assim como Deus o odeia. Assim como a realidade do inferno choca e ofende, o pecado choca e ofende o nosso Deus. Assim como não podemos olhar, com indiferença, os horrores do inferno, nosso Deus acha que o pecado revolta.
Finalmente a verdade do inferno, além de nos levar a odiar o pecado, deveria nos levar a testemunhá-la. Esta triste doutrina deve nos mover à compaixão pelas almas e à santidade de vida.

.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário